Lírios e Homens
Talvez não seja a doença que me mate... talvez seja ela que me guie. Passado poucas horas dentro do hospital, recebi alta de um dos jalecos bege fedendo a algum respingo dos materiais de limpeza que permeava estonteantemente aquela cadeia de branco. Chão, teto, parede, porta, tudo cego. Esperava que a vida por lá fosse resgatada do negro abismo que supõe-se que haja a morte, a luz ao fim do túnel que é como dizem; se, pelo menos, soubessem que a morte é pura luz... Por onde saí? Pelos fundos, não gosto de ser visto, se sinto olhares, recolho em mim com a timidez de um rato e a vergonha de uma tartaruga — doce é a iluminação noturna, poucas lâmpadas presas no céu, entre diásporas de meteoros furiosos e outros seres que se banham na atmosfera. É percorrendo o largo da cidade que vêm a cacofonia dos homens, das mulheres ouve-se o sibilo das notícias de todo o mundo, aglomeração fantástica de saberes, induzidos e descontrolados: seja a alegria da língua a formidável caravana da palavra...
