Lírios e Homens

Talvez não seja a doença que me mate... talvez seja ela que me guie.

Passado poucas horas dentro do hospital, recebi alta de um dos jalecos bege fedendo a algum respingo dos materiais de limpeza que permeava estonteantemente aquela cadeia de branco. Chão, teto, parede, porta, tudo cego. Esperava que a vida por lá fosse resgatada do negro abismo que supõe-se que haja a morte, a luz ao fim do túnel que é como dizem; se, pelo menos, soubessem que a morte é pura luz... Por onde saí? Pelos fundos, não gosto de ser visto, se sinto olhares, recolho em mim com a timidez de um rato e a vergonha de uma tartaruga — doce é a iluminação noturna, poucas lâmpadas presas no céu, entre diásporas de meteoros furiosos e outros seres que se banham na atmosfera.

É percorrendo o largo da cidade que vêm a cacofonia dos homens, das mulheres ouve-se o sibilo das notícias de todo o mundo, aglomeração fantástica de saberes, induzidos e descontrolados: seja a alegria da língua a formidável caravana da palavra: querida língua e ainda mais suave ou tenebrosa corda vocal, motim da mente ou do canto divino, confusão, babel de toda criação. Os animais também fofocam, mas se restringem a si mesmos, estamos perdidos no outro.

Se antes era a luz ofuscante da cama hospitalar, então virá a maré de sonhos que iluminam os quartos semimortos de trabalhadores, aqueles a frente de telas, outros a frente da própria face irreconhecível de sua família; perdido para sempre em “acordar cedo!”, “trabalhar mais!”, “e sairei logo desse local miserável!” que mancomunam toda espécie — em sinfonias de dores que abafam os pequenos abortos de desejo e imaginação; é morto o astronauta, é morto o físico, é esquecido o escritor... a luz da Lua, absorção da luz das luzes, a mais pura radiação do Sol, decretador de verdades e eternidade ambulante da vida. Se apenas fossem assim... os homens lírios e os lírios homens... não haveria consolado solitário e consolador insatisfeito! Mas os homens são homens e as plantas não choram; há apenas um grande consumo de sonhos num sonho que não foi sonhado.

E o girassol levanta o Sol. Com carinho, como uma almofada recebendo seu emplumador, o estofo dá asas a cabeça flutuante da vida, enganam-se que o Sol seja autônomo se a sua filha não o for também: ambos estão de braços abertos e carinhos entrelaçados. Eu estou só, já não sonho mais, já não ouço a voz das flores e a noite já não me motiva mais. Vertigem é minha ponte, e eu atravessá-la-ei uma vez mais.

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