A Criança e o Destino — A Presença da Infância na banda Swans
No plano aberto, a banda "Swans" se mostra como uma progressiva metamorfose em que, há passagens entre o fenômeno da exterioridade (exemplificado nos álbuns iniciais até começar a evasão do Eu com a entrada no álbum Greed) que se debate sempre com a figura da alienação — inserindo-se no monólogo e diálogo de perspectivas, rodando entre a visão do errante e do pecador.
O Eu-lírico descerra a própria personalidade e agora, passados as turbulências, esconde a voz de seus pensamentos, ele está tomando consciência agora do sentimento de culpa, está, portanto, olhando a si próprio em frente ao espelho da sua personalidade em um momento que tenta compreender porque está aqui e agora, porque sente isso, porque deseja isso, isto é: a sensação de peso, de dor, de pecado. Sente-se criminoso por sua vida e por viver; talvez seja um reflexo da própria vida de Michael Gira e, olhando seu perfil biográfico, haja uma centelha de sua infância e adolescência: fugiu de casa jovem com 15 anos, fez viagens por muitos locais e consumia drogas e sofreu abusos traumáticos. Estas experiências passam pela sua obra, de uma forma ou de outra.
Em primeiro lugar o álbum Filth (Imundície, Sujeira, Imoralidade) é uma passagem de dor, dor pura. Não há espaço para raciocínio exceto a inundação do sofrimento; a percussão repetitiva que parecem chicotes, o grave do baixo que soa como um arame farpado no ouvido, lixando o Eu-lírico que berra alienação... Há um discurso direto sobre a sociedade capitalista, a composição parece lembrar um senhor de escravos que maltrata e manda que sejam fortes na sua função: é força, dor, inundação. Portanto, parece refletir a imagem de um operário que só pode viver em direção ao mandamento superior, aquele que dita sua vida e desejos; a imagem da criança que possui uma inocência mesmo em relação ao que é maligno na vida concreta ainda não se forma, aqui há um indivíduo opaco que nasceu uma ferramenta, não como uma flor ou árvore que pode ter sua fase criadora de si, aqui nem mesmo o sentimento de culpa toma forma, é a alienação em pleno domínio.
O álbum "Cop" continua a desenvolver a temática de Filth, para a presente reflexão ela será ignorada.
A partir da fase gananciosa, o eu-lírico deixa de se tornar uma massa sônica como nos primeiros álbuns em que há o som do metal espancando a consciência, ela também se deixando ser matéria de expurgo da alienação — forma uma voz que se perde no espaço; há, agora, eco para vagar (ainda que em desespero niilista) depreciativamente pela esfera terrestre, no marasmo confuso e labiríntico da realidade e da pessoa opaca que é entregue a esta situação em que existe.
"I'm your stupid Child"
I'm your stupid, helpless Child"
"I'm ashamed of what I am"
"I like the way it feels"
"I like the way it burns me"
Surge agora uma figura que tomará cada vez mais contornos auto-conscientes, de primeiro momento ele recusa-a, "I lie to myself", entre as várias músicas declaram-se vezes por outras em um tom meio auto-piedoso e agressivo (mas que não berra ou grita) como ele se serve ao servir outros, para que o dominem, para que o consumam. Composto em uma voz passiva contraposta a de Filth e de Cop, ele tem tonalidades mais íntimas, conduzindo agora em revestir camadas para não sair do estado alienado a qual sua razão está pondo em análise. Surge, fragmentado, em meio ao processo de confusão e tontura, pequenos cortes de iluminação que, paradoxalmente, fazem o eu-lírico desejar o engano, todavia, o engano agora se torna mais evidente; perdendo a linhas que escondiam a criança interior do antigo homem-ferramenta que age em função da ordem estabelecida pelo poder mandatório e da culpa de falhar perante o seu imperativo.
Em "Helpless Child" o eu-lírico sabe-se livre do controle da alienação, vive, agora, diante do mundo, está-aí. Ele olha para a sua vida, seu histórico, retorna, relembra a figura materna, uma que não buscou cuidar, mas que o criou, esta que viveu drogada durante sua concepção, afetando a vida intrauterina; inserido em seu berço cheio de influências derrogatórias perante uma possível vida saudável, advém uma existência (e vida) confusa, permeada de "Sugar and Opium", algo doce e um alucinógeno... Instrumentalmente, desenvolve-se uma fase que vêm do som inicial até o monólogo do homem que relembra e da criança dentro da mãe, em um diálogo consigo mesmo por sua impotência perante um conflito violento (uma infância narcótica, um nascimento narcotizado). É uma linha bem controlada que perto do fim expande-se, porém, nunca cedendo ao nível que haja uma atuação, é um socorro sem voz, condicional a quem passou e a quem sofreu um trauma sem forma de reagir.
Não foi mencionado outro símbolo bem recorrente por entre as muitas e variadas canções de Gira, tal símbolo sendo, de fundamental importância e talvez, a maior obsessão com algo físico e figurativo, real: o Leite. Michael joga sempre está palavra em contextos aparentemente solitários, incidentes; mas ele alcança uma parede junto com a figura (e necessidade héliofílica) do Sol: o leite é tomado como a ambrósia, o néctar que abunda toda possibilidade e abole os acasos quando se vê rodeado pela brancura e pelo nutriente que alimenta a existência. O leite é um presente, uma doação pura, além da mera relação maternal cuja forma é conclusivamente um ato de bondade universal, pois, este podia ter sido recusado ao indivíduo alienado, é parte significante de sua substanciação. O leite entrega a Vida, a Vida percorre toda a própria Vida, como a ambrósia que sempre deleita os Deuses, ela é dada a humanidade como um ato de transformação, de mais-viver. Esta metamorfose se demonstra nos seus demasiados tons, mesmo no pessimismo e mesmo no otimismo.
Retomando figura solar, símbolo de razão, harmonia e boa-medida; este símbolo é rechaçado, ingerido, adentrado, castrado e acima de tudo, é a pessoa humana em sua verdadeira forma. O Sol faz aqui o papel de nova consciência do eu-lírico, sabe que ela não é perfeita, mas é funcional, é também um pouco sádica, enganadora, mas é parte de si. "I Am The Sun", "Sunfucker", "God Damn The Sun" entre outras fazem um contraste bem explícito sobre como é lidar com sua nova forma, consciência, em suma, com a própria metamorfose que se liberta da alienação. Ela parece negar para se aceitar e se aceita ao negar-se até chegar em um fim que se esclarece (quase a um molde hegeliano) após se debater.
A razão da existência deixa de ser-lhe um erro fatalista, deixa-se de ser homem-ferramenta, abandona a mácula pecadora da alienação, abraça a totalidade — ainda que em conflito, pois viver é lutar — e descerra um mar de leite, um mar de torneios.
E a figura da criança? Ela é está luta interna, ela se estabelece em meio ao campo de batalha que é a cabeça do eu-lírico — caça o leite, fode o Sol, se torna ele também — (apesar dos pesares, tomando reservas contra o biografismo na hermenêutica, um pouco como a autodescoberta própria de Michael Gira, que toma tons religiosos sem uma determinidade específica nos álbuns de 2012-2016) que começa a reencenar seu próprio reencantamento perdido na qual a infância se entrega e que ao eu-lírico, foi negado em sua fase de formação inicial.
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